Casas Bahia entra com pedido de recuperação judicial para renegociar dívida de R$ 17,3 bilhões

Casas Bahia entra com pedido de recuperação judicial O Grupo Casas Bahia anunciou, na noite deste domingo (16), que protocolou um pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo. A medida envolve a própria companhia e outras nove empresa...

17/08/2026 | Economia

 

Casas Bahia entra com pedido de recuperação judicial
O Grupo Casas Bahia anunciou, na noite deste domingo (16), que protocolou um pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo.
A medida envolve a própria companhia e outras nove empresas do grupo. O objetivo é reorganizar as finanças, renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas e garantir a continuidade das operações.
🔎 A recuperação judicial é um mecanismo previsto na legislação brasileira que permite às empresas com dificuldades financeiras renegociar suas dívidas sob supervisão da Justiça. O objetivo é evitar a falência, preservar empregos e permitir que a companhia continue operando enquanto busca reequilibrar suas contas. (veja mais aqui sobre a recuperação judicial)
Segundo a companhia, a decisão foi aprovada pelo Conselho de Administração e pelo acionista controlador. O pedido foi protocolado no Foro Central Cível de São Paulo, especializado em processos de falência e recuperação judicial.
A empresa informou que pretende manter o funcionamento das lojas físicas, do comércio eletrônico e dos demais canais de venda, sem interrupções significativas para os consumidores.
Como o pedido foi apresentado em caráter de urgência, ele ainda precisará ser ratificado pelos acionistas em Assembleia Geral Extraordinária.
Reestruturação começou em 2023
O pedido de recuperação judicial marca o desfecho de um processo de reestruturação iniciado há cerca de três anos.
Segundo a petição à qual o g1 teve acesso, a companhia lançou, em meados de 2023, um Plano de Transformação voltado à redução de custos, ao aumento da eficiência operacional e ao fortalecimento da geração de caixa.
Na primeira etapa, a empresa fechou 55 lojas consideradas deficitárias até o fim daquele ano e reduziu aproximadamente 8.600 postos de trabalho.
Em 2024, a Casas Bahia também realizou uma recuperação extrajudicial, por meio da qual renegociou cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas com instituições financeiras.
Na época, a empresa avaliava que a renegociação, aliada à expectativa de queda dos juros e de retomada do consumo, seria suficiente para estabilizar as contas. No entanto, segundo a companhia, o cenário econômico continuou desfavorável.
Em agosto deste ano, já durante a segunda fase do plano de transformação, a empresa promoveu uma nova rodada de cortes, com a demissão de cerca de 3 mil funcionários e o fechamento de quase 300 lojas.
Segundo a petição, o grupo emprega atualmente mais de 20 mil pessoas. A companhia afirma que a recuperação judicial é necessária para preservar esses empregos e garantir a continuidade das operações.
O que levou ao pedido
Em comunicado ao mercado, a Casas Bahia afirmou que o pedido foi motivado pelo agravamento do cenário econômico, marcado por juros elevados, restrição ao crédito, aumento do custo financeiro e enfraquecimento do consumo, fatores que reduziram sua capacidade de gerar caixa.
Além disso, a empresa informou que não conseguiu concluir operações de captação de recursos consideradas essenciais para reforçar o dinheiro em caixa.
No balanço divulgado antes do pedido de recuperação judicial, a companhia revelou que, entre o fim de 2025 e o primeiro semestre de 2026, realizou reuniões com investidores no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa em busca de novas fontes de financiamento, incluindo uma possível oferta de ações.
Também negociava uma operação de grande porte com investidores internacionais, considerada estratégica para seu planejamento financeiro.
Segundo a empresa, a operação acabou não sendo concluída após a desistência do investidor âncora. Outras alternativas de liquidez, como empréstimos-ponte e novas linhas de crédito, também não avançaram.
"Nesse cenário de liquidez restrita, o ajuizamento do pedido de recuperação judicial mostra-se necessário e configura mais um passo na direção da reestruturação financeira da companhia, buscando preservar a continuidade das atividades empresariais, proteger a geração de valor futuro e viabilizar uma solução ordenada para o equacionamento de suas obrigações", afirmou a empresa.
Além da Casas Bahia, o pedido de recuperação judicial inclui outras empresas do grupo:
ASAP Log – Logística e Soluções Ltda.
ASAP Log Ltda.
CNT Soluções em Negócios Digitais e Logística Ltda.
Cntlog Express Logística e Transporte Ltda.
Globex Administração e Serviços Ltda.
Cnova Comércio Eletrônico S.A.
Integra Soluções para Varejo Digital Ltda.
Casas Bahia Tecnologia Ltda.
Indústria de Móveis Bartira Ltda.
Prejuízo bilionário antecedeu o pedido
Também no domingo, a Casas Bahia divulgou os resultados financeiros do segundo trimestre de 2026. A companhia registrou prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões entre abril e junho.
Segundo a empresa, R$ 9,1 bilhões desse total são referentes a ajustes contábeis extraordinários e despesas relacionadas ao plano de reestruturação, sem impacto imediato no caixa.
🔎 Entre esses ajustes estão a redução do valor de créditos tributários que a empresa esperava utilizar no futuro, a constituição de provisões para cobrir possíveis disputas e obrigações contratuais, a reavaliação de ativos, como lojas e outros bens, além de despesas relacionadas ao processo de reestruturação da companhia.
Apesar do prejuízo, alguns indicadores operacionais apresentaram melhora. A receita líquida cresceu 1,6%, chegando a R$ 6,98 bilhões, enquanto as vendas realizadas diretamente pela internet avançaram 15,3%, para R$ 2,8 bilhões.
A companhia também informou que aumentou a geração de caixa, reduziu a dívida líquida e ampliou o prazo de vencimento da maior parte de seus financiamentos.
Mudanças na direção
No mesmo dia em que anunciou o pedido de recuperação judicial, a Casas Bahia também comunicou mudanças na alta administração.
O vice-presidente jurídico e tributário, Fábio Spina, deixou o cargo após atuar na companhia desde 2024. Segundo a empresa, ele continuará prestando serviços de consultoria durante o processo de reestruturação.
Para substituí-lo, a empresa nomeou Sírley Lima, executiva com mais de 20 anos de experiência e passagens por empresas como Heineken, Pernod Ricard, Souza Cruz e EY.
A empresa também informou a saída dos conselheiros Jackson Schneider e Rogério Calderón. Com as mudanças, Cláudia Woods passa a integrar o Comitê de Auditoria Estatutário, enquanto André Luiz Helmeister assume uma vaga no Comitê de Finanças.
Mesmo deixando o Conselho de Administração, Jackson Schneider permanecerá à frente dos comitês de Auditoria, Riscos, Compliance e Investigação da companhia.
Loja das Casas Bahia em shopping de São José dos Campos é fechada.
Sarah Brito/g1